
CAPÍTULO DOIS
O silêncio que se seguiu ao impacto não durou muito. Na verdade, para o mundo lá fora, o barulho da colisão havia sido apenas mais um som abafado pela força da natureza, mas para quem estava por perto, foi um sinal de alerta.
A chuva continuava caindo como se o céu tivesse se aberto completamente. Era uma daquelas chuvas de verão, intensas, que formavam verdadeiras cortinas de água no ar, reduzindo a visibilidade a poucos metros. O asfalto já havia cedido ao acúmulo de água, formando poças profundas e criando o perigo da aquaplanagem, o mesmo mal que havia levado Auridan àquela situação.
Dentro do carro destruído, ele já não tinha noção de nada. Seu corpo estava imóvel, pendido para a frente, sustentado apenas pelo cinto de segurança que rangeu sob a força do impacto. O ar cheirava a fumaça, a óleo queimado e a gasolina, uma mistura perigosa que pairava no ar frio da noite. Os vidros estilhaçados deixavam a chuva entrar, molhando seu rosto, seus cabelos e as roupas que antes eram sociais e agora estavam rasgadas e ensanguentadas. Seus olhos estavam entreabertos, olhando para um ponto fixo e vazio, sem ver nada. A vida ainda pulsava em seu interior, fraca e lutando, mas sua consciência já havia viajado para um lugar distante, seguro e silencioso.
Alguns minutos se passaram. Talvez dez, talvez quinze. Para quem está ferido e inconsciente, o tempo não existe, mas para quem precisa de socorro, cada segundo é uma eternidade.
Um caminhoneiro, que trafegava lentamente alguns carros atrás de Auridan, percebeu que algo estranho havia acontecido. Ele viu quando o carro prateado fez a manobra brusca, viu o véu de água e depois o vulto saindo da pista. Com cuidado, freou seu veículo alguns metros à frente, acionou o pisca alerta e desceu, protegendo-se com uma capa de chuva grossa.
— Meu Deus… — murmurou ele, ao chegar perto do cenário da tragédia.
A cena era de partir o coração. O sedan estava encostado na árvore, com a frente completamente amassada, o capô retorcido como papelão, os faróis quebrados. A lateral direita estava arranhada e amassada, prova do contato com o outro veículo que fugira ou parara mais adiante. O caminhoneiro aproximou-se com cautela, cheirando o ar, preocupado com vazamento e possível incêndio
— Oláaa? Tem alguém aí? — gritou ele, tentando vencer o som da chuva e do vento.
Não houve resposta. Ele se aproximou mais, espiando pela janela quebrada. Foi quando viu Auridan. Viu o corpo imóvel, o sangue escorrendo pela testa e manchando o banco do carro.
— Puxa vida… — O homem imediatamente pegou o celular, que por sorte ainda tinha sinal, e discou o número de emergência.
As mãos dele tremiam. O frio e a tensão faziam sua voz falhar.
— Alô? Corpo de Bombeiros? Preciso de ajuda urgente! Tem um acidente grave na Rodovia BR369… É uma colisão frontal contra árvore, o carro está todo destruído e o motorista está ferido, parece estar desacordado! Manda ambulância e reboque rápido, por favor! Está chovendo muito, a visibilidade é zero!
Ele deu as coordenadas exatas, informou o sentido da pista e o quilometragem, e desligou. Depois, ligou para a polícia rodoviária. Feito isso, ele ficou ali, ao lado do carro, fazendo o sinal para os outros veículos diminuírem a velocidade, sendo a primeira linha de cuidado para que ninguém mais se acidentasse. Ele olhou para Auridan novamente, com pena.
— Aguenta aí, irmão. A ajuda está chegando.
Vinte ou trinta minutos se passaram. Minutos que pareceram horas. Finalmente, as primeiras luzes vermelhas e azuis começaram a cortar a escuridão e a névoa da chuva. O som da sirene era agudo, cortante, um som que trazia esperança, mas que também anunciava gravidade.
Era a viatura do Corpo de Bombeiros, seguida de perto pelo SAMU. Os veículos pararam com cuidado, formando um escudo de proteção na pista. As portas se abriram e homens e mulheres treinados saltaram para fora, já com os equipamentos de proteção individual, capacetes, coletes refletivos e capas de chuva.
— Equipe, atenção! Vítima presa nas ferragens, uma vítima apenas, sexo masculino, inconsciente! — gritou o caminhoneiro, que já era conhecido pela equipe como “bom samaritano”.
O Capitão Silva, comandante da guarnição, aproximou-se rapidamente. Ele era experiente, já tinha visto milhares de acidentes, mas cada um era único e exigia frieza e técnica.
— Vamos montar o perímetro! Segurança em primeiro lugar! — ordenou ele.
Dois bombeiros foram para a pista, com bandeiras e lanternas, obrigando o tráfego a desviar lentamente. Outros foram até o carro. O médico e o enfermeiro do SAMU já pegavam sua maleta de urgência.
— Limpar a área! Verificar risco de incêndio! — ordenou o soldado Carlos, que já pegava uma ferramenta de corte.
Eles chegaram até a porta do motorista. A cena era crítica. O impacto havia sido tão forte que o painel havia invadido o espaço interno, comprimindo as pernas de Auridan. O volante estava retorcido, pressionado contra o seu peito.
— Doutor, vem ver! — chamou um dos bombeiros.
O médico, Dr. Felipe, agachou-se com dificuldade no meio da lama e da água acumulada. Ele passou a lanterna pelos olhos de Auridan. As pupilas estavam dilatadas e não reagiam bem à luz.
— Estado de coma profundo. Respiração está presente, mas superficial. Pulso rápido e fraco. Está sangrando muito na cabeça, provável traumatismo craniano. E tem fraturas expostas na perna direita. Precisamos tirá-lo daqui rápido, mas com muito cuidado. Qualquer movimento brusco pode piorar muito o quadro.
— Entendido, Doutor. Vamos para o desencarceramento. Tragam o maquinário! — gritou o Capitão.
Começou então um trabalho minucioso e intenso. Os bombeiros sabiam que estavam lutando contra o tempo. A vítima estava hipotérmica, com a temperatura do corpo caindo por causa da chuva e do choque, perdendo sangue e com risco de parada cardiorrespiratória a qualquer momento.
— Vamos abrir o teto primeiro! É a forma mais segura para não mexer na coluna cervical! — decidiu o comandante.
O barulho das ferramentas hidráulicas começou a ecoar por todo o local. O “crec-crec” do macaco espalhador, forçando a lataria para abrir espaço. O metal retorcido gritava sob a força das máquinas. Faíscas voaram quando a serra cortou os pilares do teto. A chuva caía forte nos capacetes deles, atrapalhando a visão, mas eles não paravam.
— Mais um pouco! Empurra para a esquerda!
— Consegui espaço! Doutor, consegue acessar a veia?
Dr. Felipe e a enfermeira Juliana trabalharam no espaço apertado. Mesmo com o carro todo amassado, eles conseguiram chegar até o braço de Auridan.
— Vou puncionar dois acessos venosos calibrosos. Preciso repor volume urgentemente, ele está em choque hipovolêmico.
A agulha entrou. O soro fisiológico começou a correr, rápido, gotejando a mil, tentando repor o líquido que ele perdia. Eles colocaram oxigênio através de uma máscara, imobilizaram o pescoço com uma colar cervical rígido, essencial para proteger a medula.
— Ele está estável por enquanto, mas não temos muito tempo! — avisou o médico, limpando a água do rosto.
Os bombeiros trabalhavam com uma precisão cirúrgica. Eles precisavam cortar o que estava prendendo as pernas dele sem machucar mais ainda. O cheiro de gasolina era forte, o que deixava todos tensos. Uma faísca errada e tudo poderia explodir. Mas a perícia falava mais alto.
— Soltou! A perna esquerda está livre! Agora a direita! Mais força ali!
— Vamos! Mais um pouco!
Com um esforço conjunto, eles conseguiram afastar o painel o suficiente para retirar as pernas de Auridan. O corpo dele estava mole, pesado, sem reação.
— Pronto! Preparar a prancha! Vamos retirar!
Com cuidado extremo, utilizando a técnica de rolamento manual, eles moveram o corpo de Auridan. Foi um momento de tensão total. Ele estava preso ao cinto, que foi cortado rapidamente.
— Um, dois, três, já!
Eles ergueram o corpo, transferindo com suavidade para a prancha rígida. Imobilizaram a cabeça, o tronco e as pernas. Ele estava agora seguro, fora das ferragens, envolvido em cobertores térmicos para tentar aquecê-lo.
— Levando para a ambulância! Abre caminho!
Eles correram, mas sem correr, com passos largos e firmes, carregando a prancha por entre as pedras e a lama do acostamento, até chegar à ambulância, que estava com as luzes internas acesas, parecendo um oásis de calor e organização no meio daquela tempestade caótica.
Dentro da ambulância, o trabalho continuou sem parar. A sirene foi ligada em volume máximo.
— Retorno para base, estamos saindo com a vítima! Estado grave, traumatismo craniano, politraumatizado, encaminhando para o Hospital Regional! Solicito neurocirurgião e ortopedista plantonistas!
A ambulância arrancou, cortando o trânsito, fazendo-se caminho com a sirene e os faróis. Dentro, o som era apenas dos monitores cardíacos: bip… bip… bip… O coração de Auridan batia, fraco mas insistente.
Dr. Felipe olhou para ele. O rosto estava cheio de arranhões, cortes, inchado, mas havia algo na expressão dele que parecia de paz, como se ele não sentisse nada daquela dor física.
— Segura firme, cara. Você tem uma família te esperando. Não desiste agora — murmurou o médico, enquanto ajustava os medicamentos na bomba de infusão.
A viagem até o hospital pareceu interminável. A chuva batia forte no teto da ambulância. A cada buraco, a cada freiada, eles ajustavam os soros e os equipamentos. Auridan estava recebendo o melhor atendimento possível, sendo estabilizado para suportar a próxima etapa: a cirurgia.
Quando a ambulância parou na entrada do pronto-socorro, já havia uma equipe esperando. As portas se abriram e a maca foi retirada rapidamente, rodando pelos corredores frios e esterilizados do hospital.
— Vítima de acidente automotivo, 35 anos, coma profundo, fratura de fêmur, suspeita de hemorragia interna e TCE severo! — gritou o médico da ambulância, repassando todas as informações em segundos enquanto corriam.
— Levando direto para Tomografia! Depois sala de cirurgia!
Auridan entrou naquele hospital como um desconhecido, um número de prontuário, um caso grave. Mas era muito mais que isso. Era o marido, o pai, o filho, o amigo que havia saído de casa cheio de planos e agora lutava para manter-se vivo.
Ele foi levado para a sala de exames. As máquinas zumbiam, as luzes se acendiam e apagavam. As imagens revelaram a extensão do dano: uma fratura na base do crânio, edema cerebral severo, costelas quebradas que perfuraram um pouco o pulmão, e a perna quebrada em vários lugares.
— Não tem jeito. Ele precisa ir para a UTI imediatamente. O cérebro está inchado. Vamos induzir o coma farmacológico e colocar ele sob ventilação mecânica. É a única chance de salvar a vida dele.
As palavras do médico eram frias, técnicas, mas carregavam uma gravidade imensa.
E assim, Auridan foi levado para a Unidade de Terapia Intensiva. Conectado a dezenas de fios e tubos. O ar que entrava em seus pulmões não era mais movido por ele mesmo, mas por uma máquina que soprava vida ritmicamente. Os remédios mantinham sua pressão estável. Os monitores apitavam em sintonia.
Fora da sala, na sala de espera fria e silenciosa, pouco tempo depois chegariam Larissa, desesperada, com os olhos cheios de lágrimas, e os pais de Auridan, que haviam recebido a notícia e viajado o mais rápido que puderam naquela chuva terrível.
Eles não sabiam ainda, mas aquela noite de resgate havia sido apenas o começo de uma longa, muito longa jornada. A equipe médica havia conseguido tirar Auridan da beira da morte naquela noite chuvosa, mas a batalha para trazê-lo de volta ao mundo dos vivos iria durar muito tempo. Três anos de silêncio se iniciaram ali, naquela cama de hospital, enquanto lá fora a tempestade finalmente começava a acalmar, deixando apenas o som suave da água escorrendo pelos vidros.


