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Homem Anônimo: A JORNADA

Ao sair da dobra espacial, a nave negra parecida com uma arraia gigante diminuiu drasticamente a velocidade, parou logo acima do planeta e ficou esperando. Havia algo muito errado com Óriondel. Não parecia haver ou ter havido vida naquele solo. Uma densa nuvem escura cobria a atmosfera do planeta de forma a escondê-lo da vista do espaço. Alguma anormalidade acontecera com Óriondel.

“O que aconteceu com meu lar no tempo em que fiquei fora?”, pensou Iruama, o capitão da nave, preocupado ao ver o planeta envolto por aquela neblina totalmente fora de contexto. Levantou-se da poltrona de comando e ficou andando de um lado para outro, nervoso. Fazia alguns meses que partira em missão. Missão essa que fora um fracasso total. Perdera a pequena tripulação e não conseguiu capturar o criminoso Sários. Sários que, como se não bastasse, ainda era seu irmão. E agora, depois de tudo, encontrou Óriondel de uma forma que nunca vira antes.

O que estava acontecendo? O que significava aquilo? De aonde veio aquela nuvem cinzenta que fez o planeta desaparecer?

A missão no planeta Terra fora uma derrota total, mas encontrara alguém que jamais soubera de sua existência: um filho. Resultado de um amor antigo que durou pouco, Carlos Alberto agora era mais do que um amigo. A mãe do rapaz, a quem amara como a ninguém mais, morrera no parto há quase trinta anos e ele só soubera dos detalhes da morte prematura dela recentemente.

— Mona, aproxime a lente e vasculhe o interior do planeta — pediu ele mentalmente ao computador central. — Preciso saber o que aconteceu.

Iruama voltou a sentar-se na poltrona. Usava o traje especial de trabalho na cor verde ardósia com detalhes em branco. Portava duas armas de pulso, presas na parte inferior do antebraço. O traje era muito mais que uma vestimenta, pois lhe conferia força, agilidade e facilitava a vida numa possível batalha. Seu rosto enrugado e verde estava sombrio.

— O que aconteceu, pai? — ouviu uma voz vinda às costas. Era o filho, Carlos Alberto, que viera à ponte de comando. O rapaz tinha vinte e oito anos, estatura mediana, cabelos castanhos e um físico invejável, consequência de longos anos sobre um tatame praticando karatê. — Percebi que paramos…

— Veja na tela, filho — apontou Iruama. — Essa bola de fumaça que aparece no monitor é Óriondel.

— O que pode ter acontecido? — Carlos Alberto estava decepcionado. Depois de mais de duas semanas viajando pelo cosmo, por caminhos, dobras espaciais, usando todo tipo inimaginável de recursos para encurtar caminho, coisa que só mesmo Iruama conhecia, esperava encontrar Óriondel belo e majestoso, esperando-os de braços abertos.

— Algo muito sério, Carlos Alberto. — Iruama estava taciturno, com a preocupação estampada no rosto verde e cansado. — Temo tê-los trazido para uma visita no pior momento possível.

Carlos Alberto ficou observando a tela enquanto a imagem se aproximava, mas não era possível ver além da fumaça. Era uma péssima notícia que teria que reportar à namorada Mariana e à amiga deles, Diana. Naquele momento, ambas descansavam em seus respectivos quartos. Elas já estavam amuadas com a viagem que nos primeiros dias era um sonho inigualável. Ver a Terra lá do espaço, a Lua, outros planetas, constelações, o gigantesco planeta Júpiter e os dezenas de satélites orbitando ele. O gigante da Via Láctea era simplesmente maravilhoso.

O deslumbramento durou apenas alguns dias e o que ficou para o resto da viagem foi a monotonia, além da sensação de que a viagem não chegava nunca ao fim.

Agora, quando finalmente estão chegando, essa estranha anormalidade acontece para atrapalhar tudo.

Carlos Alberto retornou para a cabine que dividia com Mariana.

— Paramos? — perguntou ela se esforçando para sentar-se na cama. Paraplégica graças a um detestável acidente de trânsito, ela aprendia, aos poucos, a conviver com a nova condição. Embarcara nessa viagem através do espaço na esperança de que a tecnologia de Óriondel pudesse lhe devolver os movimentos que perdera e que tanto lhe faziam falta. Na maioria das vezes só se dá o devido valor às coisas, como o simples ato de caminhar, depois que as perdem.

Antes que Carlos Alberto respondesse, houve uma batida na porta, ela se abriu em camadas e Diana colocou a cara para dentro.

— Estamos chegando, Carlos Alberto? — perguntou ela entrando toda feliz. — Diz que sim, por favor.

Ele deu um sorriso.

— Óriondel está logo abaixo de nós. Iruama está fazendo os procedimentos para que possamos “aterrissar”.

Carlos Alberto ficou sério. Não queria dar uma notícia ruim às mulheres sem antes saber exatamente o que estava acontecendo.

— Que maravilha — Diana batia palmas de contentamento. — Vou à ponte de comando…

— Melhor não, Diana — Carlos Alberto a interrompeu. — Fique aqui com Mariana que eu vou.

Mariana e Diana se olharam estranhando o jeito pouco à vontade dele.

— O que está escondendo, Carlinhos? — indagou Mariana, certa de que ele mentia. Conhecia o namorado há alguns anos e qualquer mudança em seus traços faciais era imediatamente notada por ela.

— Vamos, Carlos Alberto — insistiu Diana nervosa. — Não esconda nada de nós. O que aconteceu?

* * *

Enquanto usava todos os recursos possíveis da nave, Iruama se viu ladeado por Carlos Alberto, Mariana e Diana, que não acreditavam estarem tão perto e não poderem pisar em solo firme novamente; sentir os pés captarem aquela energia gostosa que vem do chão e alegra o interior das pessoas.

Depois de algum tempo observando pacientemente o planeta, Iruama resolveu enviar uma microcâmera em forma de inseto para fazer buscas e ter, em tempo real, alguma imagem que possibilitasse saber o que havia acontecido.

O minúsculo ser metálico saiu da nave por um pequeno compartimento na parte inferior e seguiu rapidamente em direção à nuvem cinza, sumindo no meio dela. Longos segundos se passaram até que ele venceu a barreira vaporosa e uma cidade gigantesca em ruínas, apareceu a perder-se de vista na lente. A filmagem que surgiu na grande tela central da nave durou exatamente três segundos, então a transmissão foi invadida por estática e a imagem desapareceu.

— Que cidade era aquela? — Diana estava assustada. Queria chorar. — Ela estava destruída? Foi isso mesmo que vi?

— Por que parou de filmar? — Mariana não entendia nada do que estava acontecendo. Estava confusa, sentada em uma moderníssima cadeira de rodas que não tinha rodas, flutuava por meio de um bolsão de ar que se formava sob ela, fazendo-a permanecer suspensa a meio metro do chão. Fora um presente do capitão da nave.

— É a capital, não é? — inquiriu Carlos Alberto, sem saber dizer algo que pudesse confortar o pai, que parecia ter envelhecido dez anos nas últimas horas.

— Sim, Delmand é a capital norte do planeta, que é dividido em quatro grandes cidades-estados. Só nesse setor que vimos há pouco moravam cerca de oitenta milhões de pessoas.

— Parecia estar totalmente destruída… — comentou Diana. As lágrimas desciam em abundância pelo rosto da mulher. Ela sempre teve problemas em controlar o pranto. — Será que estão todos mortos?

Iruama bem que gostaria de saber. Agora que pôde ver, ainda que rapidamente, a metrópole semidestruída, precisava descer e investigar.

— Vamos, Diana — chamou Mariana vendo que a amiga estava inconsolável. — Vamos para o quarto, já que não podemos ajudar mesmo.

Mariana conhecia a amiga e sabia que ela era muito sensível a qualquer acontecimento trágico. Pelo jeito muita gente morrera naquele planeta.

— Vou descer e ver o que ocorreu — disse Iruama olhando vidrado para a imagem recuperada da cidade destruída, congelada no monitor. — Preciso descobrir como aconteceu e quem fez isso.

— Será que essa fumaça é tóxica? — perguntou Carlos Alberto.

— Provavelmente — respondeu Iruama. — Mas a nave de combate é totalmente blindada. Enquanto estiver dentro dela não correrei riscos.

— Vou com você. Não vim de tão longe para ficar aqui só olhando. Não faz meu estilo.

Iruama sorriu.

— Sei disso, meu filho — ele se levantou e pôs a mão no ombro de Carlos Alberto. — Faz pouco tempo que descobri sua existência, porém já te conheço como poucos pais conhecem um filho. Sinto um orgulho imenso de ti.

— Vou avisar Mariana que… — Carlos Alberto fez menção de sair. 

— Vou sozinho, filho — disse Iruama. — Ainda não temos a mínima ideia do que ocorreu. Vou apenas fazer um reconhecimento breve e voltarei. — Ele indicou sua poltrona e o monitor. — Você fica supervisionando aqui da nave para que possa me socorrer se for preciso.

— “Tá” bem — concordou ele não muito contente por ser deixado para trás.

— Além do que, — continuou Iruama, — deixar as mulheres nesse instante, não é uma boa ideia. Viu o estado de Diana?

— Ela é assim mesmo — concordou Carlos Alberto. — Mas é forte como poucas pessoas que conheci.

Iruama se encaminhou para o estacionamento das naves de ataque, na parte inferior, e Carlos Alberto sentou-se na poltrona do capitão. Ficou de olho na tela principal e também na menor, do lado esquerdo, por onde viu a nave de Iruama sair e seguir em direção ao planeta, sumindo na fumaça.

— Consegue monitorá-lo, Mona? — perguntou ao computador, que tinha esse nome em homenagem a mãe dele, Monalisa.

— Assim que Iruama entrou na neblina os sinais sumiram completamente. Há algum tipo de energia nessa espécie de véu que impede qualquer comunicação de ser enviada para fora do planeta, Carlos Alberto. Óriondel está completamente isolado.

“Boa sorte pai”, pensou ele.

— Ele vai mesmo precisar — comentou Mona, sempre intrometida. Ele às vezes esquecia que ali tudo funcionava com a força da mente e que o computador era capaz de ler os pensamentos de todos ali dentro. Era preciso ter cuidado com o que se pensava diante daquela impressionante máquina alienígena.

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