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A DOR QUE MATA

Conto digital a dor que mata - Amauri Marcondes Escritor

Naquela manhã seu Jeremias acordou cedo como fazia todos os dias. Um hábito saudável que cultivava mesmo nos fins de semana.

Naquela terça-feira o dia amanheceu limpo e prometia ser ensolarado e quente. Jeremias se preparava para o trabalho quando sentiu a primeira ferroada no peito. Por alguns minutos ficou gemendo, sem conseguir respirar direito. Pensou que ia morrer naquele momento. Um suor frio escorria sem controle por sua testa. Homem de hábitos saudáveis, nunca fumou ou bebeu, no máximo tomava um copo de vinho ocasionalmente. Gostava de se vangloriar que tinha uma saúde de ferro. Raras vezes fora ao médico ao longo de seus sessenta e dois anos de vida. Sempre que era perguntado sobre isso, o velho brincalhão dizia que quem procura acha e ele não queria achar nada. Ainda acrescentava que pretendia chegar aos cem anos, pois seu pai morrera aos noventa e oito de uma vida bem vivida.

Após uns dez minutos sentado no sofá, Jeremias se sentiu melhor. Tomou uma xícara de café enquanto pensava se acordava a esposa para contar o acontecido. Achou desnecessário preocupá-la à toa. Não era para tanto. Pegou sua mochila do almoço, sua bicicleta barra circular vermelha de aros cromados toda enfeitada com tiras verdes e amarelas presas nas extremidades do guidão, e seguiu para o trabalho.

Para chegar ao cemitério onde trabalhava, Jeremias precisava pedalar cerca de meia hora num ritmo tranquilo. Há vinte anos, quando entrou no ofício de coveiro, Jeremias cavava a terra como um bom coveiro devia fazer naqueles tempos. Com o avanço dos tempos as coisas foram mudando. Agora um cava-terra precisava ser mais um pedreiro do que precisamente um coveiro para desempenhar suas funções. Impedidos por leis ambientais, um cadáver já não tinha o direito de descansar na terra como seus antepassados. Agora o “enterro” era feito dentro de caixas de concreto, muitas vezes acima do chão e lacrado com argamassa de cimento e areia. Jeremias nunca perdeu tempo se perguntando se era certo ou errado, apenas mudou seu modo de trabalho e seguiu firme em seu emprego. No início, ele dava conta sozinho do serviço e trabalhava pouco. Mas conforme a cidade foi crescendo a demanda também aumentou e ele ganhou novos colegas para dividir a labuta.

Faltava muito pouco para Jeremias chegar ao seu local de serviço quando sentiu uma nova pontada do lado esquerdo do peito. Com a fisgada repentina, perdeu o equilíbrio da bicicleta e caiu na calçada com um gemido preso na garganta. Alguns pedestres que seguiam para seus afazeres do dia, e já conheciam o velho de longa data por se encontrarem todos os dias no trajeto, correram socorrer o idoso.

Suando frio e com o ombro dolorido pela queda, Jeremias se sentou no meio fio e respirou com dificuldade por dois ou três minutos.

— Vou chamar o SAMU — disse alguém, preocupado, pegando o celular. — Parece grave.

— Não precisa, — resmungou Jeremias se colocando de pé com esforço. — Já estou melhor. Já passou.

Ainda trêmulo, Jeremias montou em sua bike, que haviam lhe alcançado, e seguiu seu caminho sob o olhar reprovador de várias pessoas. Naquele início de manhã, ele fora incumbido de fazer uma exumação para que outro “inquilino” pudesse tomar o lugar de alguém e quando o enterro chegasse tudo precisava estar resolvido.

O cemitério estava aberto pelo guarda e Jeremias entrou, guardou sua bicicleta e seguiu para seu local de trabalho, ignorando a moleza que sentia. Recusou até mesmo uma xícara de café que costumeiramente tomava com o guarda antes de pegar no batente.

A exumação que pretendia fazer ficava num gavetário subterrâneo na quadra cinco e era ocupada por seis gavetas. Jeremias deu uma olhada para a lápide de mármore que cobria as gavetas, uns duzentos quilos que teria que remover para poder descer até as gavetas.      Não era tão pesado como parecia, pois a tampa deslizava sobre trilhos, mas mesmo assim precisava fazer força para remover do lugar. Depois de duas tentativas, Jeremias conseguiu abrir o suficiente para descer por uma escada de ferro presa na parede até o pequeno corredor que separava três gavetas de cada lado.

Já dentro do túmulo, Jeremias pensou só por um segundo na possibilidade de desistir e ir procurar um médico. O suor frio e a moleza que sentia não era normal, pensou com um desânimo que nunca sentira em sua longa vida. Mas se lembrou que o velório ia chegar em breve e se o trabalho não estivesse pronto ia gerar o maior transtorno, tanto para os familiares do defunto quanto para ele próprio, que seria taxado de irresponsável. Precisava fazer o serviço primeiro, antes de procurar um médico.

Deu uma respirada curta, porque uma profunda já não conseguia mais, e abaixou-se para começar a abrir a gaveta. Então a dor veio novamente. Mais forte, parecia rasgar-lhe o peito sem dó.

Com um gemido sobrenatural, Jeremias caiu no estreito corredor da cripta e não respirou mais. Seu trabalho teria que ser feito por outra pessoa.

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