
Com passos firmes de quem pretendia ir longe, Auridan caminhava resoluto pelo asfalto quente enquanto o suor escorria pelo seu rosto queimado pelo sol do meio da manhã. Com o verão no auge o calor era abrasador mesmo às dez da manhã. Usava uma camiseta polo azul com um colete laranja, que o identificava como peregrino, e uma calça caqui, tipo que o exército usava, que facilitava seus movimentos. A estrada asfaltada era rural e, por isso, não tinha um movimento intenso. era um ou outro carro ou caminhão que cruzava ou passava por ele e as outras dezenas de caminhantes que faziam o percurso conhecido como: “ Caminho Terra do Sol”.
Desde 2013 que todos os anos os peregrinos faziam aquele percurso de quatro dias até a cidade de Boa Vista de Aparecida a cerca de cem quilômetros de Cascavel, Pr. apesar de já se sentir cansado, Ele tinha o rosto alegre por finalmente pegar estrada e sentia-se vivo como nunca antes em sua vida.
Havia ficado por três anos em estado de coma, um silêncio profundo que envolvia todo o seu ser, enquanto o mundo ao seu redor continuava a girar, a mudar, a viver. E agora, quase um ano depois de voltar a vida, ele ainda se sentia como um estranho em sua própria vida, como se tivesse voltado de uma viagem muito longa, para um lugar que ele reconhecia mas que já não era exatamente o mesmo. Caminhar pela rodovia era uma forma de se reconectar com o mundo, de sentir o chão sob seus pés, o vento em seu rosto, o calor do sol em sua pele. Era uma forma de lembrar, de relembrar tudo o que ele havia vivido antes daquele acidente que mudou o rumo da sua vida.
Auridan fechou os olhos por um momento, e imediatamente as memórias começaram a surgir, como se fossem filmes que se passavam diante de sua mente. Ele lembrou da sua infância, na pequena cidade onde ele nasceu e cresceu. Lembrou das brincadeiras na rua, dos amigos que ele tinha, dos dias que passava na casa dos avós, que sempre tinha um doce ou uma história para contar. Lembrou da escola, dos professores que ele gostava, dos colegas que ele compartilhava os dias, das provas que ele fazia, das vitórias e das derrotas. Lembrou do primeiro amor, da sensação de borboletas no estômago, dos beijos roubados, dos sonhos que ele tinha para o futuro.
Ele lembrou do momento em que decidiu sair da sua cidade natal para buscar uma vida melhor numa cidade maior onde as possibilidades de melhorar de vida eram melhores. Lembrou da viagem de ônibus, da ansiedade que sentiu, da expectativa de conhecer coisas novas, de fazer novas amizades, de construir uma carreira. Lembrou do primeiro emprego, ajudante de entrega da coca cola, do esforço que fez para se sair bem, dos colegas de trabalho que se tornaram amigos, das noites que passava estudando para conseguir passar de ano e finalmente terminar o ensino médio. Lembrou do momento em que conheceu Larissa, a mulher que se tornou a sua esposa. Lembrou do primeiro encontro, da conexão que eles sentiram imediatamente, dos dias que passavam juntos, dos planos que eles faziam para o futuro. Lembrou do casamento, da festa que eles fizeram, da alegria que ele sentiu ao ver Larissa caminhando até ele no altar, da promessa que eles fizeram de se amar para sempre.
Ele lembrou do nascimento dos seus filhos, Pedro e Sofia. Lembrou do momento em que segurou cada um deles pela primeira vez, da sensação de amor incondicional que sentiu, da responsabilidade que tinha de cuidar deles, de educá-los, de dar a eles uma vida boa. Lembrou dos dias que passava brincando com eles, das histórias que contava para eles antes de dormir, das viagens que faziam juntos, das risadas que compartilhavam. Lembrou das dificuldades que enfrentou, dos momentos em que ele se sentiu cansado, desanimado, mas que sempre tinha a força da sua família para lhe dar apoio, para lhe dar esperança.
E então, ele lembrou do acidente. Era uma noite chuvosa, ele estava voltando para casa depois de um dia de trabalho. A estrada estava escorregadia, e, de repente, um carro apareceu na contramão, vindo em sua direção. Ele tentou desviar, se perdeu, saiu da estrada e houve o choque com a árvore. O impacto foi forte, e tudo ficou escuro. Ele não lembrava de mais nada, não lembrava do momento em que foi levado para o hospital, não lembrava dos médicos que o trataram, não lembrava da sua família que estava ao seu lado, esperando por ele, rezando por ele, torcendo por ele. Tudo o que ele lembrava era, além silêncio na maioria das vezes, eram vozes confusas como se estivesse num outro mundo e pudesse ouvir o som de rádio distante. Só veio a saber que estivera em coma profundo quando acordou três anos depois do acidente.
Auridan abriu os olhos, e uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Ele olhou ao redor, e viu que o sol já estava mais alto, que a temperatura tinha aumentado, que o movimento dos colegas de caminhada continuava em ritmo acelerado, alguns o ultrapassando com facilidade, conversando, contando piadas rindo.
Ele continuou a caminhar, e as memórias continuavam a surgir, agora misturadas com as lembranças do tempo que ele passou em coma. Ele lembrou das vozes que ele ouvia, mesmo que não pudesse responder. Lembrou da voz da sua mãe, que sempre estava ao seu lado, falando com ele, contando histórias, dizendo que ele ia acordar, que ele ia voltar para casa. Lembrou da voz de Larissa, que lhe falava dos filhos, das coisas que eles faziam, das novidades da família. Lembrou da voz dos seus amigos, que vinham visitá-lo, que lhe contavam as notícias da cidade, que lhe diziam que ele não estava sozinho.
Ele lembrou das sensações que tinha, mesmo que não pudesse ver ou tocar. Lembrou do calor da mão da sua mãe na sua, do toque suave de Larissa no seu rosto, do som da risada dos seus filhos quando eles vinham visitá-lo. Lembrou da esperança que sentia, mesmo que não tivesse certeza de que ia acordar, mesmo que nem soubesse do seu estado. Lembrou da fé arraigada nele que o mantinha vivo, que lhe dava força para continuar, para acreditar que um dia ia sair dali, escapar daquele torpor estranho que absorvia sua força vital.
E então, ele lembrou do momento em que acordou. Era uma manhã de sol, ele abriu os olhos, e viu o rosto da sua mãe, que estava sentada numa cadeira ao seu lado, dormindo. Ele a chamou e ela acordou, e os seus olhos se encheram de lágrimas de alegria. Ela chamou os médicos, que vieram vê-lo, que fizeram exames, que disseram que ele estava bem, que ele tinha acordado. Ele lembrou da chegada de Larissa, dos seus filhos, dos seus amigos, que vieram visitá-lo, que o abraçaram, que lhe disseram o quanto eles sentiram saudades. Ele lembrou da alegria que sentiu, da sensação gostosa de ter voltado à vida, de ter a sua família e os seus amigos ao seu lado.
Mas também lembrou das dificuldades que enfrentou depois de acordar. Ele lembrou do momento em que percebeu que o mundo tinha mudado, que as coisas não eram mais como ele lembrava. Ele lembrou do momento em que viu que os seus filhos tinham crescido, que eles já não eram mais as crianças pequenas que ele lembrava. Ele lembrou do momento em que percebeu que tinha perdido três anos da sua vida, que tinha perdido momentos importantes, que tinha que se adaptar a uma nova realidade.
Ele lembrou dos tratamentos que fez, das sessões de fisioterapia, das consultas médicas, dos esforços que fez para recuperar a sua força, a sua mobilidade, a sua memória. Ele lembrou dos momentos em que se sentiu frustrado, desanimado, quando pensou que não ia conseguir, que ele ia ficar para sempre naquela situação. Mas também lembrou da força que tinha, da ajuda que recebia da sua família, dos seus amigos, dos profissionais que o tratavam, que lhe davam apoio, que lhe davam esperança.
Auridan continuava a caminhar e as memórias continuavam a surgir, agora misturadas com as lembranças dos meses que ele tinha passado desde que acordou. Ele lembrou do momento em que voltou para casa, da sensação de estar de volta ao seu lugar, de ver as suas coisas, de estar com a sua família. Ele lembrou do momento em que voltou a ver os seus amigos, de compartilhar os dias com eles, de rir com eles, de contar as suas histórias. Ele lembrou do momento em que voltou a trabalhar, de se sentir útil, de contribuir para a sociedade, de ter um propósito na vida.
Ele lembrou das pequenas coisas que agora valorizava mais do que nunca: o sol que brilha, o vento que sopra, a chuva que cai, o som dos pássaros, o cheiro das flores, o sabor da comida, o toque de uma pessoa querida. Ele lembrou que a vida é um presente, que cada momento é único, que não devemos deixar nada para depois, que devemos amar, viver, aproveitar cada segundo que temos.
Olhou para o sul, e viu que nuvens escuras já estavam começando aparecer, sinal de possibilidade de chuvas para as próximas horas. Ele parou por um momento, e respirou fundo, sentindo o vento úmido e fresco entrar em seus pulmões. Ele olhou para trás, e viu o caminho que tinha percorrido, os passos que ele tinha dado, as memórias que ele tinha relembrado. Ele olhou para frente, e viu o caminho que ainda tinha pela frente, os desafios que ele ia enfrentar, as alegrias que ele ia viver.
Ele sabia que a sua vida não seria mais a mesma, que tinha perdido três anos, que tinha que se adaptar a uma nova realidade. Mas ele também sabia que tinha a sua família, os seus amigos, a sua fé, a sua força, que ele ia conseguir superar todos os obstáculos, que ele ia viver uma vida feliz, plena, significativa.
Agora com um sorriso no rosto, com esperança no coração, com a certeza de que ele tinha voltado à vida, e que ele ia fazer de cada momento um motivo para ser feliz. Ele caminhava, e as memórias continuavam a surgir, mas agora elas não eram mais apenas lembranças do passado, elas eram também a força para o presente e a esperança para o futuro.
Pedro e Sofia, que agora eram adolescentes, tinham os seus próprios sonhos, os seus próprios planos, os seus próprios desafios. Ele pensou em como ele queria estar presente na vida deles, em como ele queria acompanhar o seu crescimento, em como queria dar a eles todo o amor e o apoio que precisassem. Pensou em Larissa, a mulher que ele amava, que tinha ficado ao seu lado durante todo o tempo, que tinha lhe dado força, que tinha lhe dado esperança. Ele pensou em como queria retribuir todo o amor e o carinho que ela tinha lhe dado, em como ele queria viver cada dia ao seu lado, em como queria fazer ela feliz.
Ele pensou na sua mãe, que tinha sido a sua fortaleza, que tinha ficado ao seu lado durante todo o tempo, que nunca tinha perdido a esperança, que nunca tinha deixado de acreditar nele. Ele pensou em como queria cuidar dela, em como queria dar a ela todo o amor e o respeito que ela merecia, em como queria fazer ela sentir que o seu esforço não tinha sido em vão.
Ele pensou nos seus amigos, que tinham sido os seus companheiros, que tinham vindo visitá-lo, que tinham lhe dado apoio, que tinham lhe dado alegria. Ele pensou em como queria continuar a ter eles na sua vida, em como ele queria compartilhar os dias com eles, em como queria fazer novas memórias juntos.
Auridan caminhava, o sol já tinha sido coberto pelas nuvens completamente, deixando o céu escuro, e alguns trovões ribombavam. Auridan tirou a mochila das costas e pegou a capa de chuva. Mesmo com chuva a caminhada continuaria até o ponto de parada. Ele olhou para o céu, e viu um relâmpago. Se sentiu pequeno diante da imensidão do universo, mas também se sentiu grande, porque ele tinha a vida, ele tinha o amor, ele tinha esperança.
Ele sabia que o caminho que tinha pela frente não seria fácil, que ia enfrentar desafios, que ia ter momentos de dificuldade, de tristeza, de frustração. Mas também sabia que não estava sozinho, que ele tinha a sua família, os seus amigos, a sua fé, a sua força, que ele ia conseguir superar tudo, que ele ia viver uma vida feliz, plena, significativa.




