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CAPÍTULO UM

  O despertador tocou às 6h15 da manhã, como de costume. O som foi suave, quase convidativo, mas Auridan abriu os olhos com aquela sensação de cansaço que já lhe era familiar. Foram semanas de muito trabalho, projetos que pareciam não ter fim e uma carga de responsabilidade que pesava nos ombros, mas que ele carregava com orgulho. Era sexta-feira, 13 de novembro. Uma data que, até então, não tinha nenhum significado especial, mas que ficaria gravada para sempre na memória de todos que o amavam.

    Ele se virou na cama e olhou para o lado. Larissa ainda dormia, com o rosto sereno e os cabelos espalhados sobre o travesseiro. Ele sorriu, observando-a por alguns segundos em silêncio. Sentiu uma onda de amor e gratidão por aquela mulher que era a sua base. Queria poder ficar ali, abraçado com ela, sentindo o calor do seu corpo, mas o dever chamava. Ele se levantou devagar, tomando cuidado para não fazer barulho, e caminhou até o quarto das crianças. 

   Pedro, com seus 10 anos, e Sofia, de 8, dormiam profundamente. Marcos parou na porta, observando-os. Imagens do futuro passaram pela sua cabeça: ver o Pedro crescendo, se tornando um homem; ver a Sofia se transformando em uma moça. Ele prometeu a si mesmo, naquele momento silencioso, que iria aproveitar mais o final de semana. Iria levar eles para passear, iriam ao parque, comeriam pipoca e assistiriam a filmes juntos. A vida não podia ser só trabalho.

    Ele foi até a cozinha, preparou o café e deixou tudo arrumado para quando a família acordasse. O sol já começava a raiar, pintando o céu de um azul claro e prometendo um dia quente. Marcos vestiu sua camisa social favorita, calçou os sapatos e foi até o quarto se despedir. Larissa já estava acordada.

    — Já vai trabalhar, amor? — perguntou ela, com a voz ainda sonolenta.

    — Vou sim. Tenho uma reunião importante em toledo hoje, mas prometo que volto mais cedo. À tarde já estou de volta e o fim de semana é todo nosso — disse ele, dando-lhe um beijo longo e apertando-a forte contra o peito. Um abraço que, naquele momento, pareceu apenas um gesto de carinho, mas que o destino fez com que fosse cheio de uma intensidade que eles não sabiam explicar.

    — Dirija com cuidado, viu? A estrada é perigosa.

    — Sempre dirijo, querida. Te amo!

    — Também te amo. Volta logo.

Auridan pegou as chaves do seu carro, um sedã prateado que ele cuidava como se fosse um filho, e saiu. O trânsito da manhã estava fluindo bem. Ele ligou o rádio, colocou aquela música que ele gostava, daquelas que fazem a gente cantarolar sozinho, e sentiu-se bem. A sensação era de dever cumprido pela manhã e de expectativa pelo descanso que estava por vir.

   A viagem até o local da reunião levou cerca de uma hora. Auridan chegou lá com tempo de sobra, estacionou o carro e foi recebido pelos colegas. O dia transcorreu como qualquer outro. Discussões, números, planilhas, apertos de mão. Ele era um profissional competente, respeitado, e saiu da sala de reunião com a sensação de que tudo tinha dado certo. O acordo foi fechado, as metas foram atingidas.

    Mas o tempo passou mais rápido do que ele imaginava. Quando olhou para o relógio, já passava das 17h30. O céu, que antes era azul, começava a ganhar tons de cinza carregado. O vento mudou, ficou mais forte, e as primeiras gotas de chuva começaram a cair no telhado do escritório.

     — Auridan, está chovendo muito lá fora. Por que não espera um pouco? Ou até passa a noite por aqui? — sugeriu um colega.

    Auridan pensou por um instante. Olhou o celular e viu uma mensagem de Larissa: “Quando vem?”. Ele pensou nas crianças, esperando para jantar com ele, pensou no abraço que o esperava em casa. A vontade de estar com a sua família era maior do que o medo da chuva.

    — Não dá, pessoal. Tenho que ir. Minha família está me esperando. Amanhã é sábado, quero chegar logo! — respondeu ele, com aquele sorriso confiante.

    Ele se despediu, desceu as escadas e correu até o carro. A chuva já caía forte, daquelas que dificultam a visão. Ele entrou no veículo, ligou o ar-condicionado, ajustou os limpadores de para-brisa para a velocidade máxima e deu a partida. 

    No início, a rodovia estava relativamente movimentada, mas ainda fluía. Marcos estava atento, como sempre fazia. Ele conhecia aquela pista, já havia feito aquele trajeto centenas de vezes. Sabia onde havia curvas perigosas, onde as lombadas ficavam e onde os pontos de ultrapassagem eram permitidos.

    Conforme a noite ia caindo, a chuva só aumentava. Não era uma chuva qualquer, era um temporal daqueles que parecem não ter fim. A pista ficou escorregadia, brilhando sob a luz dos postes e dos faróis dos outros carros. Marcos reduziu a velocidade. A prudência falou mais alto. Ele pensou: “Está perigoso, melhor ir devagar, minha familia me espera em casa.”

    A estrada era de pista dupla, mas com pouco movimento naquela altura. Ele estava na faixa da direita, mantendo uma distância segura do carro que ia à sua frente. A cada minuto que passava, ele estava mais perto de casa. Faltavam apenas 20 quilômetros. Quase lá.

    Ele ligou para Larissa.

    — Alô, amor? Estou voltando. Está chovendo muito, mas estou indo devagar. Devo chegar em menos de uma hora.

    — Que bom, meu amor. Toma muito cuidado, por favor. Os noticiários estão dizendo que a visibilidade está péssima.

    — Estou vendo, mas estou tranquilo. O carro está bom, eu estou bem. Te vejo daqui a pouco.

    Desligou a chamada. Colocou as mãos firmes no volante. Respirou fundo. Sentiu um pouco de sono, o cansaço do dia longo começava a bater, mas ele lutou contra isso. Abriu um pouco a janela para deixar o ar frio entrar e manter os sentidos aguçados.

   Ele havia acabado de passar por um trevo, entrando em uma reta longa, mas que logo dava início a uma sequência de curvas suaves. Auridan acelerou um pouco, aproveitando o trecho plano. Os faróis altos cortavam a escuridão e a cortina de água que caía do céu.

    De repente, algo chamou a sua atenção no meio da pista. Não, não era algo. Era alguém. Ou melhor, era um veículo.

    — O que esse louco tá fazendo?

    Vindo na contramão, um carro apareceu. Primeiro foi apenas dois pontos de luz branca, muito fortes, ofuscantes, que cortavam a chuva. Auridan piscou os olhos, pensando que era alguma ilusão, que o carro estava na faixa correta e que a chuva estava enganando a sua percepção. Mas não. Os pontos de luz ficavam maiores, mais intensos, e vinham diretamente na sua direção.

    O coração de Auridan deu um salto forte, como se quisesse sair pela boca. O pânico tomou conta do seu sistema nervoso em uma fração de segundo.

    — Não… não pode ser! — sussurrou ele, com a voz embargada pelo susto.

    Seu cérebro trabalhou a mil por hora. Analisou a situação: o carro da frente estava muito perto, não havia como frear bruscamente sem derrapar na aquaplanagem. O acostamento era estreito e cheio de pedras. A única saída era para a direita, mas havia um barranco.

    O carro da contramão vinha em alta velocidade, provavelmente desorientado pela chuva, ou talvez o motorista tivesse dormido, ou perdido o controle. Não dava tempo de pensar no porquê. Só dava tempo de reagir.

    Auridan virou o volante com força total para a direita, tentando desviar da rota de colisão. Ele gritou, um grito de desespero e de instinto de sobrevivência.

    — AAAHH!

    Mas foi tarde demais. A distância era curta demais e a pista molhada não permitiu manobras bruscas. Ele viu o vulto do outro veículo passar muito perto, roçando a lateral do seu carro. O susto fez com que ele perdesse completamente o controle da direção.

    O seu carro derrapou. Ele sentiu o chão escorregar. A sensação era irreal, como se estivesse flutuando, mas com uma violência terrível. O veículo saiu da pista, atravessou o acostamento e bateu forte contra uma árvore isolada que ficava na beira da estrada.

     O barulho foi ensurdecedor. Um CRASH metálico, seco, violento. O airbag disparou, acertando o seu peito e rosto com força, o que ajudou a amortecer, mas também o atordoou completamente. O vidro se estilhaçou, pedaços de plástico e metal voaram por todo lado. O motor parou de funcionar com um solavanco seco.

    Tudo ficou em câmera lenta e, depois, rápido demais. Por um segundo, houve um silêncio absoluto. Um silêncio que doía nos ouvidos. Marcos estava pendurado um pouco para o lado, preso pelo cinto de segurança que cumpriu o seu papel, salvando-lhe a vida naquele exato momento, mas condenando-o a um longo sono depois.

    Ele tentou mover o braço. Tentou abrir os olhos, mas a visão estava embaçada, cheia de pontos brilhantes e névoa. Ele tentou chamar por alguém, tentou dizer o nome de Larissa, mas a voz não saiu. Apenas um som rouco e fraco.

    Uma dor lancinante começou a se espalhar pelo seu corpo, vindo da cabeça, do peito e das pernas. Ele sentiu um gosto metálico na boca, sangue. O mundo ao redor dele parecia girar, embora o carro estivesse imóvel. A chuva continuava caindo forte, batendo no que restava da lataria amassada, mas para ele, o som já estava distante, como se estivesse dentro d’água.

    Seus pensamentos foram ficando confusos. Ele tentou se agarrar à imagem da família, tentou se manter consciente, mas havia uma força muito maior, uma vontade do corpo de desligar, de descansar, de fugir da dor. A escuridão, que antes era apenas a noite lá fora, começou a invadir a sua mente, fechando os seus olhos pouco a pouco.

    — Larissa… meus filhos… eu…

    Foi a última coisa que ele conseguiu pensar. A consciência foi se esvaindo como areia entre os dedos. Ele não sentiu mais medo, não sentiu mais dor. Houve apenas uma sensação de queda livre, suave e profunda, até que tudo se apagou completamente.

    Auridan mergulhou no breu. O barulho da chuva, o cheio de gasolina e queimado, tudo desapareceu. Ele não sabia, mas naquele exato momento, o relógio da sua vida havia parado. Os médicos diriam depois que ele entrou em estado de coma logo após o impacto, seu corpo lutando para sobreviver enquanto a mente se retirava para um lugar seguro e silencioso.

    Foram segundos de terror, mas para ele, pareceu uma eternidade. E quando ele abriu os olhos novamente, não seria mais aquela noite chuvosa, nem aquele ano. Três anos se passariam antes que a luz voltasse a fazer sentido para ele.

    Naquele momento, porém, havia apenas o silêncio. E a chuva caindo sobre os destroços de uma vida que havia sido interrompida no meio do caminho.

EM BREVE O PRÓXIMO CAPÍTULO

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